Dias finais do horário de verão.
Os servidores já encerravam o ritual do escalda-pé nas respectivas superquadra e sala de TV.
Os seguranças confrontavam o desempenho dos times do Rio e se preparavam para praticar espera.
Os dirigentes faziam o gelo girar no copo e despachavam as prioridades do dia seguinte com a secretária.
Um estrondo. Estrangeiro, contrabandeado, inexplicado. Inequívoco, mas sem legenda, sem seta, sem pingo nem trema.
Desci em desabalo: pouco degrau para muito pé. Só os meus. E o coração na sola, talvez um em cada.
Olhos lá fora: só os meus dois também.
Um céu que só vendo. Como se flores fundidas à água, impressionismo em grande forma. Chá de rosa derramado sobre toalha de papel crepom azul-claro. Se existisse.
Tanto mar que cheguei a me esquecer da possível ex-bomba. Investigar. Descobrir. Ninguém pra perguntar. Deduzir. Farejar. Um prédio rachado, um disco caído. Nada. Um tanque (des)governado, um urso abatido, um sonhador com uma rosa de bala no peito. Que nada.
Quase conformado ao mistério, eis o eis-que. Dei de cara com sua corporificação.
A chave, não da causa, mas do efeito. Sua iconografia. A fumaça ainda postada sobre a catedral, como um pensamento plúmbeo, pedaço silencioso da explosão de minutos antes, seu osso. O desenho de um imenso formigueiro implodido. Como se um sioux esquecesse o bife na frigideira dentro da tenda. Como se um pequeno vulcão ali na obra do arquiteto.
Ainda ninguém nos arredores. Intrigante idem. Uma ausência quase militante, quase um grito surdo, um antigrito, quase como se eu fosse o único não avisado de um bombardeio, uma praga, o fim de um vilarejo, um tigre escapado, o novo nome de um lugar ou de um regime. Me vesti de interrogações. Vandalismo? Mágica? Falta de manutenção? Arrastão imobiliário? Ritual neopentecostal ou ecumênico? Fantasmagoria do presidente-fundador? Sublimação de energia represada do Dr. Oscar?
Nada nos jornais do dia seguinte. Nem nas letras nem nos espaços em branco, que às vezes falam mais que elas. Nada nos dos dias que viriam.
As pessoas seguem sentadas ou penduradas dentro dos ônibus, os ônibus seguem cumprindo o cotovelo dos três poderes, as corujinhas seguem girando a cabeça para os passantes, os aviões seguem sobrevoando as vidraças da catedral e os carros somem e reaparecem.
Só sei do estrondo. E de seu balão carbônico, que as fotos não mentem jamais.
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