Marcelino Freire

Cheiro forte
By biondi.pedro 8 anos agoNo Comments
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Literatura boa a gente conhece pelo cheiro. Digo: logo pelo primeiro parágrafo. Impulso. Pelo ritmo. Linguagem a galope. Pelos golpes. Garras do autor. Em que terreno ele põe suas patas. E asas.

Pois este foi bem o caso do livro de Pedro Biondi. Que, um belo dia, veio parar na portaria do meu prédio. Um original ainda inédito, reunindo os contos deste seu Cheiro de Leoa. De cara, uma prosa inovadora. No primeiro olhar, a surpresa boa. Tamanha delicadeza! Chão adentro.

Lembro: entrei em contato com o Biondi assim que li suas histórias sonoras, como a que dá título ao volume e assim começa: “Esta manhã as zebras do meu quintal me pareceram outras”.

Ora essa! Zebras? O autor vem me falar em zebras? Leoas? Ursos piratiningas? Nuvens? Jabuticabeiras? Onde se esconde esse escritor-caçador que me diz de um paraíso magica e nostalgicamente feliz? Madrugal, etc. e tal? Por um triz?

Achei bem enxuta a unidade de sua ficção. O casulo do seu discurso. Obra que me levou, em pensamento, à do curitibano Wilson Bueno. E, até, às manhãs do Guimarães. Pois é. Algo que há tempo eu não via na prosa à vista. Uma voz bem peculiar, singular. E bem-vinda.

Biondi tem um jeito de traquejar com a língua. De ir direto na fonte. Eu gosto de autor como ele, onde a vida-narrativa vai sendo contada pelo que há de água. De som nas palavras. Este é o seu horizonte estonteante.

A saber: “Escavo e escuto o mar e me diluo em seu furioso e sereno cicatrizar. Uma mão puxa o menino, custo para descolar os olhos dos três tatuís que me fazem cócegas na palma […] Queria tanto dizer pra ele aproveitar a vida e tomar cuidado com ela…”. Trecho, esse, retirado do belo texto-testamento “Homem e Menino”.

Biondi, sim, não só fala de matas fechadas. Digamos: apenas amazônicas. Fala, ao que parece, idem, a partir de sua infância paulistana. Bucólica e melancólica. Lembranças cheias de imaginação. De um tempo em que o mundo tinha outro oxigênio. Eis a prova.

É só puxar pela respiração.

Apresentação (“orelha”) do livro Cheiro de Leoa

 

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